O antropólogo e historiador Juliano Spyer criticou a forma como parte da esquerda intelectual brasileira enxerga os evangélicos. Em entrevista ao jornal O Globo publicada neste domingo (18), ele afirmou que o fiel “continua tratado como charlatão ou coitadinho”, numa referência às duas caricaturas que, segundo ele, costumam marcar o olhar sobre o segmento.
Especialista no estudo do cristianismo evangélico e das classes populares, Spyer sustenta que essa visão dificulta a compreensão de um grupo que ganhou peso social e político nas últimas décadas. Para o antropólogo, reduzir os fiéis a pessoas manipuladas por pastores ou enxergar as lideranças religiosas apenas como exploradoras da fé ignora a complexidade das igrejas e o papel que elas exercem nas comunidades.
Spyer também tem apontado uma dificuldade histórica da esquerda em estabelecer diálogo com esse público. Em análises recentes, ele afirmou que o PT desperdiçou oportunidades de construir uma relação mais próxima com igrejas influentes e que parte desse distanciamento está ligada à falta de compreensão sobre valores, linguagem e experiências dos fiéis.
O peso do segmento tornou essa relação ainda mais relevante na política nacional. Pesquisa Iser/Quaest divulgada em setembro aponta que os evangélicos representam 29% da população brasileira e formam um grupo heterogêneo, dividido entre diferentes denominações, perfis sociais e posições políticas.
Spyer é autor de livros sobre o crescimento evangélico no Brasil e realizou parte de sua pesquisa de campo em uma comunidade popular na Região Metropolitana de Salvador. Seus estudos defendem que a expansão das igrejas deve ser analisada também por aspectos como redes de solidariedade, pertencimento comunitário, mobilidade social e participação política.

